Desde os anos 1980, Pomerode ganhou fama como “a cidade mais alemã do Brasil”. Mais atualmente, sob o slogan de “nossa pequena Alemanha”.

Entre clichês turísticos e fachadas em enxaimel, há um traço de germanidade que realmente salta aos olhos de qualquer visitante: a ordem. Tudo na cidade sempre se apresenta tendo uma razão de ser. Os jardins exibem gramas impecavelmente aparadas, as lojinhas mantêm vitrines impecáveis e até as calçadas varridas revelam um zelo que não é por acaso.

Seguindo a lógica padrão das pequenas cidades, em Pomerode, há a rua que vai e a rua que volta. E como em tantas pequenas localidades do mundo, existe nela uma região central que se revela sem esforço. É onde há o prédio da sede administrativa, a praça, o café-restaurante-botequim onde os “pitaqueiros” locais se reúnem para comentar a coletividade…

É bem nesse traçado típico, facilmente reconhecível, que há uma peculiaridade que intriga até os visitantes mais desatentos. Pois a face da igreja central está virada de lado, em relação à rua. E como foi antecipado, isso tem a sua razão de ser. A resposta não está em capricho de engenheiro ou distração de pedreiro.

Para entender o detalhe curioso, é preciso voltar no tempo.

Quando foi erguida, no final do século 19, a rotina da localidade seguia o curso do Rio do Testo. Enquanto não havia pontes, toda e qualquer travessia era feita a pé, a cavalo ou em carroça. Justamente ali, num trecho mais raso por onde a população cruzava o rio, se deu a implantação da igreja.

E do outro lado, poucas décadas depois, era erguida a antiga Firma Weege, com comércio e indústria alimentícia. Um empreendimento que ajudou a moldar não apenas o desenho urbano, como boa parte do desenvolvimento econômico e social desse coração do município.

Antes de ser cidade, Pomerode foi colônia. Parte da Colônia Blumenau, mais especificamente, nascida de um Brasil que abria suas terras devolutas a imigrantes europeus em busca de vida nova. O então governo imperial português, com sua pressa de “civilizar” o Sul, concedia grandes extensões a companhias colonizadoras, como a de Hermann Blumenau, que as revendiam a famílias camponesas.

Panfletos circulavam pela Europa, especialmente nas áreas do antigo império austro-húngaro, prometendo terras férteis, clima saudável e futuro próspero. Sem perspectivas de prosperar em sua terra natal, os imigrantes embarcavam no sonho.

Chegavam ao Brasil de navio pelo porto do Rio de Janeiro ou de Santos. Depois, desciam até o porto de Itajaí rumo a Blumenau, e dali para o lote que lhes coubesse. Compravam a terra antes mesmo de vê-la, como quem hoje compra um apartamento de praia apenas pela promessa da planta.

Não era golpe, mas tampouco era o paraíso ofertado. As matas fechadas exigiam derrubada, o solo nem sempre correspondia às expectativas, as sementes trazidas não vingavam sob o clima úmido e quente. O trigo, o centeio e as favas das terras germânicas precisaram ceder espaço ao milho, à mandioca, à batata-doce. E assim se reinventava a subsistência.

Foi nesse contexto que nasceu Hermann Weege, em 1877, filho de Carl e Auguste, dois imigrantes pomeranos. Foi o primeiro da família a nascer no Brasil, na região conhecida por Pomerode Fundos. O mais velho de 15 filhos, frequentou o colégio e foi o único da família a estudar fora da colônia.

Em 1891, aos 14 anos, tornou-se aprendiz na Firma Malburg, em Itajaí. Aos 18, mudou-se para Curitiba e trabalhou na sofisticada Firma Hauer & Irmão, adquirindo experiência no ambiente urbano e moderno da capital paranaense. Passados três anos, sentiu que era hora de voltar. Pediu as contas, aprumou-se numa bicicleta e desceu a serra, de volta ao Vale.

De retorno ao Rio do Testo, casou-se com Pauline Karsten. No mesmo ano, abriu a Casa Comercial Weege às margens do Rio do Testo, bem próximo à igreja luterana. Era agosto de 1901 e, sem saber, ele dava início a uma trajetória que mudaria para sempre o destino do lugar.

Visionário e determinado, Hermann acreditava que o progresso se construía com trabalho e ousadia. Com a esposa e os filhos — Albrecht, Victor, Cecília e Arno — transformou a sua pequena venda em um complexo empresarial.

A Casa Comercial se expandiu em Indústria e Comércio Hermann Weege S/A, sendo frigorífico, fábrica de laticínios, gelo, tintas, latas e tantos outros nichos. E foi dela que brotaram muitas das primeiras vezes da cidade, como o primeiro hotel, o primeiro carro, o primeiro caminhão, o posto de gasolina, a chegada da energia elétrica e das linhas telefônicas.

Paralelamente, a política também fez parte de sua caminhada. Entre 1911 e 1930, representou o distrito de Rio do Testo como vereador em Blumenau e deputado estadual. Lutou pela abertura das estradas que ainda hoje ligam Pomerode a Blumenau e à Jaraguá do Sul.

Como se não bastasse, também era entusiasta dos animais. A partir dos açudes de sua casa, transformados em refúgio da fauna nativa, abriu ao público em 1932 o primeiro zoológico privado do Sul do Brasil.

Hermann partiu desse mundo em 1947, aos 69 anos, deixando para trás uma cidade em transformação. Seus descendentes continuaram o trabalho, diversificando os negócios. Mais que uma empresa, a Firma Weege se tornou um emblema da identidade de Pomerode, que garantiu empregos, deu sustento, trouxe modernidade e, por muito tempo, grande orgulho à comunidade.

No entanto, como em tantas histórias de apogeu e declínio, o destino também impôs sua curva à Firma Weege. Após mais de 90 anos de funcionamento, a empresa veio à falência na década de 1990. Muitos perderam trabalho, investimentos, referências.

Criou-se, a partir de então, uma ferida na memória local, difícil de cicatrizar, que se tornou uma mistura de ressentimento e saudade, ranço e nostalgia. Mas um desfecho que não sai como o esperado, não é razão para invalidar toda a trama que o precedeu.

Hoje, muitas décadas após esse final adverso, é mais do que hora de revisitar a saga dos Weege. Porque lembrar de quem veio antes é também celebrar quem somos agora. Remexer esse baú não é apenas abrir memórias, é reconhecer que a cidade deve muito ao impulso e às escolhas de seus pioneiros.

Estas crônicas são um convite a atravessar um legado. Algumas são pitorescas, muitas deliciosamente espirituosas. Todas, no entanto, trazem em comum o desejo de humanizar o passado e lembrar que cada visão e gesto de outrora dessa família, ousado ou ingênuo, ajudou a compor a Pomerode como hoje a conhecemos.

Boa leitura!

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