Para todos verem: imagem de uma casa antiga, de técnica enxaimel, em preto e branco. A casa tem um telhado inclinado e várias janelas frontais com moldura clara. Há quatro palmeiras altas na frente da casa, próximas à fachada. Em frente, do lado direito da imagem, há um automóvel antigo estacionado, com várias pessoas em pé ao redor, possivelmente da época em que a foto foi tirada. Ao centro, na porta da casa, também há algumas pessoas, incluindo um homem de chapéu. No canto inferior esquerdo da foto estão as palavras: “Hotel Pommerode”. A imagem parece ser histórica, possivelmente uma foto digitalizada de um jornal ou livro antigo.


Ávido fã das tecnologias progressistas, em 1913 Hermann Weege comemorou um marco pessoal: comprou um automóvel de passeio. Alemão, evidentemente. Era um Protos, marca pioneira no uso de motor com partida elétrica.

Respeitada mundo afora por investidores influentes, era conhecida por ser a preferida do imperador austro-húngaro Francisco José I. À época, também havia sido escolhida para compor a primeira frota de carros oficiais do governo brasileiro, no Rio de Janeiro.

Imagine um exemplar desses a circular pela Vila do Rio do Testo? Minha nossa! Seria um acontecimento digno de levar o povoado inteiro às ruas. A negociação para esse momento, é claro, não foi simples. Mas Hermann conseguiu bons termos através da Firma Bromberg, conceituada loja de representações de São Paulo.

Para chegar à garagem dos Weege, no entanto, o carro precisou seguir de navio até o Porto de Itajaí e, de lá, subir o Rio Itajaí-Açu em uma balsa até Blumenau. E os esforços não pararam por aí. Até então, a ligação entre a cidade e a Vila de Rio do Testo, ainda muito estreita e irregular, já era um desafio para as carroças. Quem dirá para um veículo com ares de nobreza.

Introduzindo um novo ritmo ao progresso local, o Protos precisou aguardar por dois anos na Stadtplatz, enquanto Hermann providenciava, do próprio bolso, os recursos para a abertura da estrada. Durante esse tempo, o carro permaneceu estacionado sob os cuidados da renomada oficina de Wilhelm Froeschlin, na Rua das Palmeiras, bem no centro de Blumenau.

De humor bem mais leve que as engrenagens do Protos, de tempos em tempos, o mecânico enviava recados ao dono com atualizações sobre o exílio forçado. “Ligo-o vez ou outra, só para o motor não cair no tédio” ou “converso com ele em alemão, para não esquecer da pátria”, era o tom de seus informes dedicados.

Quando as condições de passagem se tornaram viáveis até o Rio do Testo, Hermann içou um carroceiro na primeira hora da manhã para levá-lo a Blumenau, ao resgate do filho pródigo.

— Ele está em forma? — perguntou, mal descendo da carroça.

— Mais do que nós dois juntos, Herr Weege. Dei-lhe um banho e até escovei os bancos para que o senhor pudesse conhecê-lo em toda sua honra e gloriosa dignidade.

Uma vez destituído do posto de guardião do veículo, Froeschlin foi convocado à missão seguinte: ensinar o empresário a dirigir.

Para isso, ganhou um quarto com regalias no hotel recém-construído pelos Weege no Rio do Testo, incluindo café da manhã, almoço e jantar. Ele ficaria à disposição da família por um mês inteiro. O mecânico viu na oportunidade uma espécie de férias pagas. Uma justa recompensa por ter mantido o carro impecável, à espera do dono.

Conforme o combinado, despediu-se da esposa e dos filhos. A mulher preparou uma caprichada cesta de iguarias, com pão, queijo, embutidos e bebidas, para a viagem da dupla. A bagagem era completada por um kit de ferramentas, uma mala com pertences e alguns bons galões de combustível.

— Está pronto para encarar a jornada? — perguntou Wilhelm a Hermann, com um sorriso de canto de boca, enquanto vestia o par de luvas de couro.

— Tenho que estar. O progresso chega para todos, meu amigo. E logo mais vai chegar a fundo para mim, às custas de um pouco mais da sua paciência.

Cambaleando em meio aos buracos da Stadtplatz Blumenau, lá foi o Protos, enfim, rumo à estrada nova.

Quisera poder dizer que a chegada à Vila de Rio do Testo foi épica, inesquecível, repleta de glamour e entusiasmo, como nos sonhos de Hermann. Mas já era fim de tarde e os dois desceram do carro exaustos e imundos, completamente cobertos de poeira.

Ainda assim, clientes da Casa Comercial Weege, funcionários da fábrica, homens, mulheres, velhos e crianças — não houve um só que não esticasse o pescoço para ver a novidade de quatro rodas que Herr Weege trazia consigo.

Cabe dar-se o braço a torcer, porque o veículo realmente tinha sua pompa. Sóbrio, distinto, cheio de detalhes. No entanto, Pauline, que aguardava o marido e o ilustre hóspede defronte o hotel para uma recepção cordial, analisava cada detalhe da carroceria já prevendo as dores de cabeça que aquela máquina estrambólica lhe traria.

— Seja muito bem-vindo, Herr Froeschlin. Acredito que sua expertise evitará a recorrência do médico por esses lados.

— Muito obrigado, Frau Weege. Estou muito satisfeito por poder ajudar.

A hospedaria, assim como a Casa Comercial dos Weege e tantos outros estabelecimentos da região, havia sido erguida em enxaimel. A fachada, no entanto, tinha uma certa imponência, com grandes janelas enfileiradas e um telhado em três águas que lhe rendia um belo diferencial. Por dentro, um piso com longas tábuas de madeira de primeira qualidade cobria o espaço, mostrando que ali não se haviam poupado esforços financeiros.

Em terras ainda sem eletricidade, as lamparinas começavam a ser acesas, enquanto um delicioso cheiro de pão fresco tomava conta do salão. Naquela hora, uma senhora de avental e expressão austera ajeitava a mesa para o jantar: pão, nata, queijo, Schmier, linguiça.

Para surpresa do mecânico, garrafas de cerveja foram convidadas a brindar com eles a chegada do Protos.Hermann, de fato, brindou satisfeito com o convidado, petiscou e foi terminar o jantar em casa, com a família.

Froeschlin serviu-se com moderação, mas saboreou cada mordida como se fosse sua última refeição. Serviu mais um copo de cerveja e permitiu-se relaxar. No salão, só havia outro viajante, um comerciante de tecidos. Era um rapaz franzino, de cabelos castanhos bem aparados e longo bigode, vindo de Curitiba.

— O senhor veio a negócios? — perguntou, mais por educação do que por real curiosidade.

— Sim. Cuidei do carro do Herr Weege nos últimos anos. Trouxe-o até aqui na vila e, agora, vou ficar por aqui até que ele aprenda a fazer curvas sozinho.

O homem riu com a boca cheia.

Cansados, os dois trocaram mais algumas palavras sobre o quanto o futuro parecia chegar rápido demais: já era a vez da energia elétrica, do telefone e, agora, dos carros e aviões. O que viria depois? Limparam as botas, despediram-se da conversa cheia de hipóteses e recolheram-se às suas respectivas camas para uma merecida noite de sono.

Na manhã seguinte, no primeiro dia das aulas de direção, Froeschlin levou o manual, as luvas e uma paciência mais testada que os freios do carro. Hermann, por sua vez, entrou no veículo como se tivesse sido chamado para presidir o culto infantil da paróquia — cheio de propósito e boas intenções, porém, completamente perdido.

— E agora?

— Agora, gire a chave.

O carro tossiu, deu um solavanco e morreu. Não houve quem não parou os afazeres para acompanhar a cena. Da entrada do armazém, senhores encostados nos batentes faziam piadas em voz baixa. Era deboche, sim, mas com respeito.

Exceto Pauline, que ria sem disfarces, se divertindo mais do que todos juntos.

— Isso é mesmo um brinquedo de homens crescidos. Arno, ao menos, não finge saber o que está fazendo com os brinquedos dele!

A partir de então, para escapar da plateia destemida, as aulas passaram da manhã para o fim da tarde, quando a clientela já havia voltado para casa e Pauline estava ocupada com o jantar. Era também o horário posterior às tarefas de contabilidade e não era raro Hermann estar vesgo de cansaço.

Com isso, as lições acabavam ficando para o outro dia. E para o próximo.

— Você sabe, Hermann, eu até poderia prolongar minha estadia e garantir mais um mês por aqui.

— Agradeço a oferta e não me oponho, meu amigo. Mas hoje vamos com foco, Froeschlin. Foco.

E não é que foi mesmo?

Depois de alguns engasgos, o Protos andou. Vacilante, trôpego, mas andou. Hermann se sentiu como um general após a batalha: peito inflado, mãos suadas. Pauline, que observava tudo à distância, fez questão de aplaudir o marido de perto pela conquista:

— Muito bem, Hermann! Agora só mais uns 20 dias para aprender a controlar o volante.

Mas Hermann não se importou. Naquele fim de tarde, com o motor roncando e o orgulho intacto, ele havia cruzado novos limites da modernidade, ainda que na primeira marcha.

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