Para todos verem: imagem em preto e branco mostra uma igreja antiga com uma torre alta e fina, finalizada com um cume pontiagudo. A igreja é cercada por algumas árvores e parece estar situada em uma área rural ou em um campo aberto. A foto é visivelmente antiga, com qualidade típica de fotografias antigas em preto e branco.
Domingo, dia de culto, era o momento mais aguardado da semana por muitas famílias da Vila do Rio do Testo.
O sol mal havia vencido a neblina das primeiras horas quando os sinos da Igreja da Paz começaram a repicar, ecoando seu som metálico, grave e sereno, lá do alto da torre. Eram seis em ponto. Tempo de se apressar para uma manhã de hinos, orações e sermões.
A estrada de chão batido, ainda úmida do sereno da noite, já começava a ser marcada por pegadas, rodas de carroça e cascos de cavalos. As famílias vinham em procissão, com suas melhores roupas. Ao se encontrarem pelo caminho, os moradores saudavam-se com acenos respeitosos, murmúrios contidos, mas olhos radiantes. Era o dia da comunhão com Deus e entre si.
Os homens, de chapéu, paletó e sapatos lustrados para o dia do Senhor, conversavam em baixo alemão sobre as colheitas, as vendas e as chuvas da semana. As mulheres, de vestido comprido, seguravam firme as mãos dos filhos pequenos e tentavam adivinhar qual seria o sermão que o pastor havia preparado.
Enquanto isso, as crianças e os jovens, com os rostos limpos e os cabelos penteados com água, se esforçavam para parecerem bem-comportados diante da vizinhança — e, claro, aos olhos de Cristo.
A frente da igreja, voltada para a hoje tranquila Rua Arthur Buerger, surgia imponente bem no centro da vila. A sua posição no terreno pode até causar confusão atualmente, já que a maneira de circular pela cidade mudou com o tempo.
Mas nas primeiras décadas do Rio do Testo, fazia todo o sentido. Bem defronte a sua entrada, passava uma estrada movimentada que levava até o trecho mais raso do rio, de onde se alcançava a Firma Weege, do outro lado da margem.
Sem ponte, a travessia se fazia por carroças rangendo sobre pedras lisas e por pedestres atravessando com os pés molhados. Havia ainda quem preferisse vir a remo, em escaleres de madeira escura que deslizavam devagar, refletindo os tons dourados da manhã.
A água do Rio do Testo corria mansa, espelhando o céu azul e a silhueta da igreja que se destacava à distância. Em estilo neogótico, a construção era mais do que uma bela arquitetura, grande e civilizada, em meio à paisagem rural da vila. Representava um símbolo de fé e pertencimento, com suas formas evocando a memória da Alemanha natal dos colonizadores.
Lá dentro, o pastor Johannes Buerger já se encontrava na sacristia, com a batina escura impecável e a estola branca no lugar. Era o primeiro a fixar residência em Pomerode. Um líder de fala firme, cuja presença respeitosa conquistara a comunidade.
Os homens entravam e seguiam para as fileiras do lado direito; as mulheres tomavam o lado esquerdo. Era assim e ninguém questionava. A madeira do assoalho estalava sob os passos, enquanto o cheiro ocre das bíblias antigas e dos hinários de capa grossa, trazidos cuidadosamente de casa, pairava no ar.
Pouco antes das nove, os sinos voltaram a tocar. Agora, mais vivos, mais solenes. As conversas cessaram, todos se alinharam e os olhos voltaram-se ao altar. Era hora do culto. E, para variar, os Weege chegaram em cima do laço, levantando poeira na entradinha de terra.
Hermann, o patriarca, desceu primeiro; Pauline, elegante como sempre, veio logo atrás. Depois, os filhos, em sequência, apertaram o passo: o primogênito Albrecht, com seu chapéu ligeiramente torto; Victor, sempre curioso com tudo ao redor; a delicada e sorridente Cecília; e o caçula, Arno, ainda esfregando os olhos, cheio de sono.
Hermann, confiante e talvez um tanto desavisado, liderou o clã até o banco da frente, no lado direito, sem prestar atenção à separação ritualística entre os gêneros. Pois homens e mulheres da família Weege sentaram-se lado a lado.
As demais pessoas, já acomodadas, arregalaram os olhos, e o burburinho tomou conta dos bancos da igreja.
— Mas o que é isso? — cochichou Dona Hilda, uma senhora de olhos de águia e língua afiada. — Os Weege sentados juntos? Onde já se viu?
— Vai ver pensam que a regra não vale para eles — sussurrou o senhor Friedelin, ajustando os óculos no nariz.
O pastor, até então com semblante sereno, subiu ao púlpito e avermelhou-se com a cena à sua frente. “Devo corrigi-los? E se o fizer, como reagirão?”, pensou, com cara de número três, enquanto abria a Bíblia.
Preferiu dar prosseguimento à liturgia, mas a atenção dos fiéis já havia ido com Deus. Cada palavra parecia perder-se no mar de olhares furtivos direcionados à família sentada unida, como uma ilha no meio do oceano de normas sociais.
Pois Hermann, alheio ao fuzuê, cantava os hinos com entusiasmo, na mesma medida em que Pauline examinava o ambiente, tentando entender o que causava o rebuliço. E as crianças, que bem podiam estar a rir da confusão, mantinham-se em silêncio e plena compostura.
Ao final do tumulto, — ou melhor, do culto — o pastor Buerger se aproximou de Hermann, com a Bíblia ainda nas mãos e a cara de poucos amigos.
— Família Weege, não é sempre que temos a honra de tê-los conosco numa manhã de domingo! Espero que se sintam sempre bem-vindos. Mesmo com essa… peculiar escolha de assentos.
Hermann apertou a mão do clérigo com força e, com um brilho de humor nos olhos, respondeu:
— Pastor, aqui somos todos iguais perante Deus, não é mesmo? Mas devo admitir que meu lugar preferido, mesmo na igreja, é sempre onde está minha família.
O pastor sorriu amarelo, sem saber se aquilo era um pedido de desculpas ou uma lição disfarçada de piada.
Enquanto partiam de volta para casa, Albrecht comentou:
— Papai, acho que o pastor quis dizer que deveríamos nos sentar separados da próxima vez, como todos fazem.
Hermann riu, ajeitando o chapéu do filho:
— Deixe que os outros façam como quiserem. Nós somos uma família, dentro ou fora da igreja. Lembre-se disso.
A ousadia vista naquela manhã virou tema de longas fofocas por todos os cantos da vila. Muitos anos depois, ainda rendia risadinhas, especialmente nos almoços de domingo da própria família.
E embora todos se divertissem ao relembrar a gafe, no fundo, sabiam que havia razão nos modos de Hermann. Estarem juntos viria sempre antes de qualquer regra sobre religião ou exemplo de bons costumes.



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