Para todos verem: a imagem de uma fotografia em preto e branco mostra um grupo grande de pessoas reunidas ao ar livre, em frente a uma construção de dois andares com diversas janelas e uma varanda no andar superior. A multidão está de costas para a câmera, a maioria usando chapéus, em torno de várias palmeiras. Na lateral esquerda da foto, há uma anotação manuscrita que diz “Rio do Testo 21-08-38”. A imagem transmite uma cena antiga de evento ou reunião popular.

Hermann Weege ajustou o nó da gravata enquanto observava a fachada recém-construída da intendência. Ainda cheirando a tinta fresca, o prédio imponente de dois andares despontava como um novo ponto de referência bem no coração do Rio do Testo, ao lado da Igreja Luterana. Dizia muito, sem precisar dizer nada, sobre o novo ar de modernidade que começava a soprar por aquelas bandas.

Rodolfo Schippmann, o intendente do jovem distrito, aguardava à porta com um sorriso largo. Vestia um paletó pesado de corte antigo e cor indefinida — uma mistura de verde musgo com poeira institucional — provavelmente, escolhido mais pela pressa do que pelo espelho.

Mas o brilho nos olhos compensava qualquer falta de elegância. Com quase dois metros de altura e entusiasmo de sobra, parecia um menino diante de um brinquedo novo. E de certo modo, era mesmo. Não escondia o orgulho de ver ali, de pé, a obra que ajudara a tornar realidade.

Desde 1934, quando o Distrito do Rio do Testo foi oficialmente criado, era nome de confiança indicado pelas lideranças de Blumenau para tocar as demandas locais com pulso firme e olhos atentos.

— Meu sempre deputado Hermann Weege, bem-vindo! — disse, estendendo a mão com entusiasmo. — É uma honra ter nosso grande representante aqui neste dia!

Naquele agosto de 1938, Hermann já não era só o distinto empresário da abonada Firma Weege. Era também um político de renome, que teve assento na Assembleia Legislativa de Santa Catharina, eleito em 1927.

Mas mantendo seu feitio, representava a região como gerenciava os negócios, com um misto do seu pragmatismo alemão e um apetite constante pelo progresso.O industrial tinha a influência cultivada em meio a discursos firmes, colunas de jornais e encontros em cafés bem frequentados por todo o Vale do Itajaí.

Naquela manhã, a sua presença era mais que um aceno de prestígio à inauguração pública: era prova de que os assuntos do Rio do Testo estavam sendo ouvidos bem mais longe do que se podia enxergar.

O caloroso aperto de mãos entre os representantes políticos foi interrompido pela chegada ofegante de um ajudante:

— Senhores, sinceras desculpas por atrapalhar vossa conversa. Mas confirmaram ao telefone. Apesar do tempo fechado, o prefeito José Ferreira da Silva está a caminho. Mantém-se tudo confirmado para o evento.

— Que ótimo! — disse Schippmann, agora com um sorriso que trazia mais nervosismo do que entusiasmo. — Mas entremos logo, Weege, antes que ele chegue com os famosos discursos que fazem até os relógios adormecerem.

Risos contidos. O prefeito era um nome muito respeitado, sem dúvidas. Mas também era conhecido pela fala longa, capaz de transformar um bom dia em três páginas de retórica. Moradores do Rio do Testo, que ainda se sentiam mais à vontade no baixo alemão, mal acompanhavam as voltas do português floreado do dirigente, quanto mais as voltas do seu discurso repleto de extensas referências.

— Meu caro amigo, veja com seus próprios olhos — disse Schippmann, conduzindo-o ao salão principal. — Avalie, com o crivo de quem circula pelos gabinetes da capital do nosso estado, a qualidade do que temos por aqui. Enquanto isso, a Prefeitura de Blumenau ainda segue em reforma…

— Sei bem — respondeu Hermann, com um leve sorriso. — Parece que saímos na frente, ao menos na eficiência.

— Veja, já temos onde fazer nossos documentos. Já temos cartório, registro civil, sala de atas… está tudo no seu devido lugar! — destacou o intendente, passando os dedos pela madeira encerada da nova mesa.

— E uma sede administrativa não é apenas um lugar para papéis — reforçou Hermann, cruzando as mãos atrás das costas. — É onde as vontades se organizam. Onde decide-se para onde caminhar. Isso é muito promissor.

— Mas que fique claro — respondeu Schippmann, baixando a voz em tom de confissão. — Não estamos aqui para fazer sombra à cidade-mãe. Estamos aqui apenas para existir com maior dignidade.

O cheiro de verniz e madeira nova preenchia o ambiente. De fato, estava tudo bonito, limpo, organizado, com mobiliário de madeira escura que lembrava as salas políticas da capital.

Pelas janelas grandes, a luminosidade da manhã ainda entrava preguiçosa, refletindo no tampo brilhante da longa mesa de reuniões. No canto, como toda boa repartição pública, um bule exalava o perfume acolhedor de café preto recém passado, ao lado de um arranjo caseiro de gerânios e uma convidativa travessa de biscoitos de manteiga.

Do lado de fora, os membros da banda desafogavam os instrumentos de sopro, se preparando para os atos oficiais. Lá fora, também, os moradores começavam a se aglomerar defronte o prédio, vestidos em trajes de domingo. Afinal, era dia de festa! Não era sempre que se inaugurava uma sede administrativa.

— Mas vou bem lhe dizer que tenho grande curiosidade em ver o dia que nossa Pommeroda irá andar com as próprias pernas. Ainda falta, eu sei, mas esse momento chegará — disse Hermann, apontando para um grande mapa de Blumenau emoldurado na parede. — As mudanças têm sido intensas nos últimos tempos.

— E como têm sido essas mudanças… — respondeu Schippmann, puxando uma cadeira. — Dividiram as terras como quem parte um pão no meio do almoço. Primeiro, foi Bela Aliança. Depois Hamônia, Gaspar, Timbó, Indaial… todos emancipados à canetada, sem consulta, nem cerimônia. Um susto para muita gente.

Hermann assentiu, pensativo. Ele sabia bem das tensões por trás daquelas decisões.

Em 1934, o governo Vargas, num piscar de olhos, havia redesenhado o mapa de Blumenau. Protestos, passeatas, até o comércio fechou as portas em sinal de “luto” pela cidade que se via sendo retalhada por decreto. Uma fragmentação que era muito mais do que mera reconfiguração de território, era uma jogada política do governo central. E não das mais sutis.

Era uma estratégia bem calculada para minar as bases de poder das lideranças teuto-brasileiras dessas comunidades.De norte a sul do país, o intenso nacionalismo do período, que ficou conhecido nos livros de história por Estado Novo, apertava o cerco contra tudo que fosse estrangeiro.

Na região, onde a presença germânica era tão forte quanto o cheiro das conservas e dos embutidos nas cozinhas, era uma verdadeira caça às bruxas. Nada mais de escolas ensinando alemão, nada de jornais em dialeto, cultos ou festas no idioma dos antepassados. As fachadas em enxaimel e até os nomes dos lugares tiveram que trocar de roupa, vestindo-se de Brasil rapidamente… e um tanto a contragosto.

Hermann, pragmático até a medula, via tudo com parcimônia. Não aprovava um centralismo que tratava comunidades inteiras como meras peças num tabuleiro distante. Mas não era homem de remar contra a correnteza com uma colher de pau, a erguer bandeiras que pudessem lhe custar a paz, ou a fábrica.

Em vez disso, buscava adaptar-se, fazendo da discrição uma forma de resistência. Para ele, o que importava era manter os empregos, a produção e a dignidade das pessoas. Era convicto que o verdadeiro progresso não vinha de ordens de cima, mas da força organizada da base.

Hermann tinha para si que a autonomia das comunidades era a verdadeira ferramenta para o desenvolvimento de uma frente nacional forte. Por isso, se mantinha preocupado em promover a abertura de novas estradas, de trazer mais escolas e incentivava o senso de pertencimento local.

— Sei que soa afrontoso, diante dos termos que se passaram com os nossos vizinhos e das nossas tensões diárias… — soltou em tom de desabafo, com um meio sorriso no rosto. — Mas sou um sonhador e gosto da ideia de que, um dia, teremos no Rio do Testo um prefeito nosso, uma Câmara própria. E nenhum discurso alheio para aturar.

O intendente soltou uma risada leve, quase um suspiro.

— O senhor fala como se já visse o futuro.

—  Um prédio, sozinho, não faz um distrito, Rodolfo. Mas é um bom começo! — ponderou Hermann, enquanto acenava ao prefeito de Blumenau, que chegava com sua comitiva.

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